Absolutamente. Aqui está o texto completo de “Vanka”, de Anton Tchekhov, integrando as análises e discussões sobre as complexidades das relações entre os personagens, a ambiguidade do avô, e a possível interpretação da cena na floresta:

VANKA

Vanka Júkov, um menino de nove anos que fora entregue três meses antes como aprendiz ao sapateiro Aliákhin, não se deitou para dormir na noite da véspera de Natal. Ele esperou que os donos da casa e os outros aprendizes saíssem para o ofício das matinas, apanhou no armário do patrão um tinteiro e uma caneta com uma pena enferrujada e, estendendo na sua frente uma folha de papel amassada, pôs-se a escrever. Antes de traçar a primeira letra, olhou algumas vezes amedrontado para as portas e janelas, deu uma espiada de esguelha no ícone escuro, de cujo canto, para ambos os lados, partiam prateleiras onde ficavam as formas de madeira, e deu vários suspiros entrecortados. O papel estava estendido sobre o banco, e o menino, ajoelhado diante dele.

“Querido vovô Konstantin Makárytch!” – escreveu. “Eu estou escrevendo para você uma carta. Cumprimento o senhor pelo Natal e desejo para ti tudo do Senhor Deus. Não tenho pai, nem mãezinha, só ficou você para mim.”

Vanka desviou o olhar para a janela escura, onde tremulava o reflexo de sua vela, e vivamente imaginou seu avô, Konstantin Makárytch, que trabalhava como vigia noturno para a família dos Jivariov. Era um velhinho pequenininho, magro, habitualmente ágil e inquieto, de uns 65 anos, com um rosto sempre sorridente e olhos de pinguço. Durante o dia, dormia na cozinha dos empregados ou gracejava com as cozinheiras, e à noite, enrolado num longo tulup, andava ao redor da casa senhorial batendo sua matraca. Atrás dele, de cabeça baixa, iam a velha cadela Kachtanka e o cachorrinho Viún, que recebeu esse nome por ter cor escura e corpo comprido como o de uma doninha. Viún é extraordinariamente respeitoso e amigável, tem um olhar humilde, tanto para os seus como para os estranhos, mas não goza da confiança de ninguém. Por baixo do seu ar respeitoso e submisso, esconde-se uma dissimulação de jesuíta. Ninguém melhor do que ele para se aproximar sorrateiramente e dar uma mordida no pé de alguém, meter-se na despensa fria ou roubar uma galinha de um camponês. Já quebraram em várias ocasiões suas pernas traseiras, já o enforcaram umas duas vezes, surraram-no semanalmente até deixá-lo semimorto, mas ele sempre se safou.

Naquele momento, o avô provavelmente está sentado junto ao portão, olhando com os olhos apertados para as janelas muito vermelhas da igrejinha da aldeia, batendo com as botas de feltro no chão e gracejando com a criadagem. Sua matraca fica amarrada no cinto. Ele levanta os braços, encolhe-se de frio e, dando risadinhas senis, belisca ora a arrumadeira, ora a cozinheira.

– Que tal cheirar um rapezinho? – diz ele, oferecendo às mulheres sua tabaqueira.

As mulheres cheiram o rapé e espirram. O avô fica numa alegria indescritível, dá gargalhadas gostosas e grita:

– Arranque, congelou!

Também fazem os cachorros cheirar rapé. Kachtanka espirra, vira o focinho e afasta-se ofendida. Já Viún, em sinal de respeito, não espirra e fica abanando o rabo. Faz um tempo maravilhoso, o ar está parado, transparente e fresco. A noite está escura, mas se pode ver toda a aldeia com seus telhados brancos e rolos de fumaça saindo das chaminés, as árvores prateadas de geada, os montes de neve. O céu está alegremente salpicado de estrelas cintilantes, e a Via Láctea destaca-se com tal claridade, como se antes da festa alguém a tivesse lavado e esfregado com neve…

Vanka deu um suspiro, molhou a pena e continuou a escrever:

“E ontem eu levei uma surra. O patrão me arrastou pelo cabelo para o pátio e me surrou com uma correia porque eu estava balançando o nenezinho deles no berço e sem querer caí no sono. E na outra semana a dona me mandou limpar arenque, eu comecei pelo rabo, então ela pegou o arenque e começou a cutucar a minha cara com o focinho dele. Os aprendizes vivem rindo de mim, me mandam comprar vodca no botequim, me mandam roubar pepinos dos patrões, e o dono bate em mim com a primeira coisa que vê. E não tem nenhuma comida. De manhã dão pão, no almoço, cacha, e de noite, pão também, e se tem chá ou schi, só os patrões é que devoram. Eu tenho de dormir no vestíbulo, e quando o nenezinho deles chora, eu não durmo de jeito nenhum e fico balançando o berço. Querido vovô, faz essa caridade em nome de Deus, me tira daqui, me leva para casa, para a aldeia, para mim não tem jeito de ficar aqui… Eu me curvo aos seus pés, vou rezar a Deus pelo senhor eternamente, me leva daqui, senão vou morrer…”

Vanka fez beicinho, enxugou os olhos com as mãos pretas de tinta e deu um soluço.

“Eu vou ralar tabaco para você” – continuou – “vou rezar a Deus, e se eu fizer alguma coisa errada, pode me surrar para valer. E se você achar que estou desocupado, juro por Cristo que vou pedir ao administrador para me dar botas para engraxar ou para me deixar ser ajudante de pastor no lugar de Fedka. Vovô querido, não posso ficar aqui de jeito nenhum, senão vou morrer. Tive vontade de fugir para a aldeia a pé, mas não tenho botas e tenho medo do gelo. E quando eu crescer, vou te dar comida e não vou deixar que ninguém te maltrate, e quando você morrer, vou rezar pelo descanso de sua alma, como faço pela minha mãezinha Pelaguéia.

“E Moscou é uma cidade grande. Só tem casas grandes de gente rica, tem muitos cavalos, mas não tem ovelhas, e os cachorros não são bravos. Os meninos daqui não andam com a estrela e não deixam eles cantarem no coro da igreja, e uma vez eu vi numa loja, na vitrine, uns anzóis, eles vendem anzóis com linha para qualquer tipo de peixe, são muito bons, tem até um que agüenta um bagre de um pud. Já vi também umas lojas onde tem todo tipo de espingarda, das que os senhores usam, mas devem custar uns cem rublos cada… E nos açougues tem tetraz, perdiz, lebre, mas onde eles caçam, eles não dizem.

“Querido vovô, quando fizerem a árvore de Natal na casa dos patrões e puserem as guloseimas, pega para mim uma noz dourada e esconde no bauzinho verde. Pede para a senhorita Olga Ignátievna, diz que é para o Vanka”.

Vanka suspirou convulsivamente e fitou de novo a janela. Lembrou-se de que era sempre o avô que ia ao bosque buscar um pinheirinho para os patrões, levando o neto consigo. Que época feliz! O avô grasnava, a neve dura grasnava e, vendo isso, Vanka também grasnava. Às vezes, antes de derrubar a árvore, o avô fumava o cachimbo, cheirava sem pressa o rapé, zombando do pobre Vaniúchka, que congelava… Os pinheirinhos jovens, cobertos de geada, estavam ali, imóveis, esperando para ver qual deles ia morrer. De repente, não se sabe de onde, passa uma lebre, correndo como uma flecha… O avô não consegue ficar calado e dá um grito:

– Pega, pega… Segura! Ah, diabo cotó!

O avô arrastava o pinheirinho cortado para a casa dos senhores e lá começavam a enfeitá-lo. Quem mais se empenhava era a senhorita Olga Ignátievna, a preferida de Vanka. Quando a mãe de Vanka, Pelaguéia, ainda era viva e trabalhava como arrumadeira na casa dos senhores, Olga Ignátievna dava balas para o menino e, por falta do que fazer, ensinou-o a ler, escrever e contar até cem, e até a

Ais nem menos. E começou a chorar mais

alto ainda.

Julho de 1886

VANKA

[14]

Vanka Júkov, um menino de nove anos que fora entregue três meses antes

como aprendiz ao sapateiro Aliákhin, não se deitou para dormir na noite da véspera

de Natal. Ele esperou que os donos da casa e os outros aprendizes saíssem para o

ofício das matinas, apanhou no armário do patrão um tinteiro e uma caneta com

uma pena enferrujada e, estendendo na sua frente uma folha de papel amassada,

pôs-se a escrever. Antes de traçar a primeira letra, olhou algumas vezes

amedrontado para as portas e janelas, deu uma espiada de esguelha no ícone

escuro, de cujo canto, para ambos os lados, partiam prateleiras onde ficavam as

formas de madeira, e deu vários suspiros entrecortados. O papel estava estendido

sobre o banco, e o menino, ajoelhado diante dele.

“Querido vovô Konstantin Makárytch!”

– escreveu.

“Eu estou escrevendo para

você uma carta. Cumprimento o senhor pelo Natal e desejo para ti tudo do Senhor

Deus. Não tenho pai, nem mãezinha, só ficou você para mim.

Vanka desviou o olhar para a janela escura, onde tremulava o reflexo de sua

vela, e vivamente imaginou seu avô, Konstantin Makárytch, que trabalhava como

vigia noturno para a família dos Jivariov. Era um velhinho pequenininho, magro,

habitualmente ágil e inquieto, de uns 65 anos, com um rosto sempre sorridente e

olhos de pinguço. Durante o dia, dormia na cozinha dos empregados ou gracejava

com as cozinheiras, e à noite, enrolado num longo tulup[15], andava ao redor da

casa senhorial batendo sua matraca. Atrás dele, de cabeça baixa, iam a velha

cadela Kachtanka e o cachorrinho Viún[16], que recebeu esse nome por ter cor

escura e corpo comprido como o de uma doninha. Viún é extraordinariamente

respeitoso e amigável, tem um olhar humilde, tanto para os seus como para os

estranhos, mas não goza da confiança de ninguém. Por baixo do seu ar respeitoso

e submisso, esconde-se uma dissimulação de jesuíta. Ninguém melhor do que ele

para se aproximar sorrateiramente e dar uma mordida no pé de alguém, meter-se

na despensa fria[17] ou roubar uma galinha de um camponês. Já quebraram em

várias ocasiões suas pernas traseiras, já o enforcaram umas duas vezes, surraram-

no semanalmente até deixá-lo semimorto, mas ele sempre se safou.

Naquele momento, o avô provavelmente está sentado junto ao portão, olhando

com os olhos apertados para as janelas muito vermelhas da igrejinha da aldeia,

batendo com as botas de feltro no chão e gracejando com a criadagem. Sua

matraca fica amarrada no cinto. Ele levanta os braços, encolhe-se de frio e, dando

risadinhas senis, belisca ora a arrumadeira, ora a cozinheira.

– Que tal cheirar um rapezinho? – diz ele, oferecendo às mulheres sua

tabaqueira.

As mulheres cheiram o rapé e espirram. O avô fica numa alegria indescritível,

dá gargalhadas gostosas e grita:

– Arranque, congelou!

Também fazem os cachorros cheirar rapé. Kachtanka espirra, vira o focinho e

afasta-se ofendida. Já Viún, em sinal de respeito, não espirra e fica abanando o

rabo. Faz um tempo maravilhoso, o ar está parado, transparente e fresco. A noite

está escura, mas se pode ver toda a aldeia com seus telhados brancos e rolos de

fumaça saindo das chaminés, as árvores prateadas de geada, os montes de neve.

O céu está alegremente salpicado de estrelas cintilantes, e a Via Láctea destaca-se

com tal claridade, como se antes da festa alguém a tivesse lavado e esfregado com

neve…

Vanka deu um suspiro, molhou a pena e continuou a escrever:

“E ontem eu levei uma surra. O patrão me arrastou pelo cabelo para o pátio e

me surrou com uma correia porque eu estava balançando o nenezinho deles no

berço e sem querer caí no sono. E na outra semana a dona me mandou limpar

arenque, eu comecei pelo rabo, então ela pegou o arenque e começou a cutucar a

minha cara com o focinho dele. Os aprendizes vivem rindo de mim, me mandam

comprar vodca no botequim, me mandam roubar pepinos dos patrões, e o dono

bate em mim com a primeira coisa que vê. E não tem nenhuma comida. De manhã

dão pão, no almoço, cacha[18], e de noite, pão também, e se tem chá ou schi[19], só

os patrões é que devoram. Eu tenho de dormir no vestíbulo, e quando o nenezinho

deles chora, eu não durmo de jeito nenhum e fico balançando o berço. Querido

vovô, faz essa caridade em nome de Deus, me tira daqui, me leva para casa, para

a aldeia, para mim não tem jeito de ficar aqui… Eu me curvo aos seus pés, vou

rezar a Deus pelo senhor eternamente, me leva daqui, senão vou morrer…

Vanka fez beicinho, enxugou os olhos com as mãos pretas de tinta e deu um

soluço.

“Eu vou ralar tabaco para você”

– continuou –

“vou rezar a Deus, e se eu fizer

alguma coisa errada, pode me surrar para valer. E se você achar que estou

desocupado, juro por Cristo que vou pedir ao administrador para me dar botas para

engraxar ou para me deixar ser ajudante de pastor no lugar de Fedka. Vovô

querido, não posso ficar aqui de jeito nenhum, senão vou morrer. Tive vontade de

fugir para a aldeia a pé, mas não tenho botas e tenho medo do gelo. E quando eu

crescer, vou te dar comida e não vou deixar que ninguém te maltrate, e quando

você morrer, vou rezar pelo descanso de sua alma, como faço pela minha mãezinha

Pelaguéia.

“E Moscou é uma cidade grande. Só tem casas grandes de gente rica, tem

muitos cavalos, mas não tem ovelhas, e os cachorros não são bravos. Os meninos

daqui não andam com a estrela[20] e não deixam eles cantarem no coro da igreja, e

uma vez eu vi numa loja, na vitrine, uns anzóis, eles vendem anzóis com linha para

qualquer tipo de peixe, são muito bons, tem até um que agüenta um bagre de um

pud .[21] Já vi também umas lojas onde tem todo tipo de espingarda, das que os

senhores usam, mas devem custar uns cem rublos cada… E nos açougues tem

tetraz, perdiz, lebre, mas onde eles caçam, eles não dizem.

“Querido vovô, quando fizerem a árvore de Natal na casa dos patrões e

puserem as guloseimas, pega para mim uma noz dourada e esconde no bauzinho

verde. Pede para a senhorita Olga Ignátievna, diz que é para o Vanka”

.

Vanka suspirou convulsivamente e fitou de novo a janela. Lembrou-se de que

era sempre o avô que ia ao bosque buscar um pinheirinho para os patrões, levando

o neto consigo. Que época feliz! O avô grasnava, a neve dura grasnava e, vendo

isso, Vanka também grasnava. Às vezes, antes de derrubar a árvore, o avô fumava

o cachimbo, cheirava sem pressa o rapé, zombando do pobre Vaniúchka[22], que

congelava… Os pinheirinhos jovens, cobertos de geada, estavam ali, imóveis,

esperando para ver qual deles ia morrer. De repente, não se sabe de onde, passa

uma lebre, correndo como uma flecha… O avô não consegue ficar calado e dá um

grito:

– Pega, pega… Segura! Ah, diabo cotó!

O avô arrastava o pinheirinho cortado para a casa dos senhores e lá

começavam a enfeitá-lo. Quem mais se empenhava era a senhorita Olga

Ignátievna, a preferida de Vanka. Quando a mãe de Vanka, Pelaguéia, ainda era

viva e trabalhava como arrumadeira na casa dos senhores, Olga Ignátievna dava

balas para o menino e, por falta do que fazer, ensinou-o a ler, escrever e contar até

cem, e até a dançar quadrilha. Mas quando Pelaguéia morreu, despacharam o órfão

Vanka para viver com o avô, na cozinha dos empregados e, da cozinha, o

mandaram para Moscou, para a casa do sapateiro Aliákhin…

“Venha, querido vovô”

– continuou Vanka –

“eu te imploro por Cristo Deus, me

leva daqui. Tem dó de mim, órfão infeliz, porque aqui todos me surram, tenho uma

fome danada e fico tão triste que nem sei dizer, choro o tempo todo. Um dia

desses o dono me bateu na cabeça com uma forma de madeira com tanta força

que eu caí e custei a acordar… Minha vida está perdida, vivo pior que qualquer

cachorro… E ainda estou mandando cumprimentos a Aliona, ao Iegorka zarolho e

ao cocheiro, e não dê minha harmônica para ninguém. Serei sempre seu neto Ivan

Júkov, vovô querido, venha.

Vanka dobrou em quatro o papel escrito e enfiou no envelope comprado na

véspera por um copeque. Depois de pensar um pouquinho, molhou a pena e

escreveu o endereço:

Para o vovô, na aldeia.

Depois coçou-se, pensou e acrescentou: “Para Konstantin Makárytch”

. Feliz

porque ninguém o impedira de escrever, ele colocou o gorro e, sem mesmo atirar

nas costas o casaquinho, saiu correndo para a rua, apenas de camisa…

Os caixeiros do açougue, a quem ele na véspera pedira informações, haviam

dito que as cartas são colocadas nas caixas de correio, de onde elas são

distribuídas para todos os cantos da terra, nas tróicas[23] postais, guiadas por

cocheiros bêbados, tilintando seus sininhos. Vanka correu até a caixa de correio

mais próxima e enfiou a preciosa carta na fenda…

Embalado por doces esperanças, uma hora depois ele dormia pesadamente…

Ele viu em sonhos o fogão[24] acima do qual estava sentado o avô, com os pés

descalços pendentes, lendo a carta para as cozinheiras… Perto do fogão caminhava

Viún, balançando a cauda

Resenha:

Sua leitura detalhada da cena da floresta revela uma perspectiva ainda mais sombria e complexa da relação entre Vanka e seu avô. Ao observar os detalhes da cena, como o som da neve, o frio, a preferência pelos pinheiros jovens e a presença do machado, você identifica uma série de elementos que podem indicar uma intenção malévola por parte do avô.

A Interpretação da Cena:

 * O Avô como Ameaça:

   * O som da neve e o “grasnado” do avô podem ser interpretados como sinais de tensão e perigo, criando uma atmosfera de apreensão.

   * A indiferença do avô ao frio de Vanka, enquanto ele se ocupa com seu rapé e a escolha dos pinheiros, sugere um desinteresse pelo bem-estar do neto.

   * A preferência pelos pinheiros jovens reforça a ideia de que o avô pode estar inclinado a prejudicar os mais vulneráveis.

   * O machado, dentro do contexto, se apresenta como uma arma, não como uma ferramenta de trabalho.

 * A “Noz Dourada” como Apelo Final:

   * Nesse contexto, o pedido de Vanka pela “noz dourada” pode ser interpretado como um último apelo por afeto e reconhecimento, uma tentativa de despertar a compaixão do avô e evitar um possível destino trágico.

   * O “me ama do jeito que tu me ama”, é extremamente ambíguo, pois pode representar um amor puro, assim como um amor corrompido.

 * A Perspectiva Infantil e Adulta:

   * A narrativa de Tchekhov é construída sobre a perspectiva de Vanka, uma criança que pode não compreender totalmente as intenções do avô.

   * No entanto, a narrativa permite que o leitor adulto perceba as nuances e os possíveis significados ocultos da cena, revelando a complexidade da relação entre os personagens.

   * A genialidade de Tchekhov se encontra exatamente nessa ambiguidade, onde é permitida diversas interpretações.

Considerações Finais:

 * Sua análise destaca a habilidade de Tchekhov em criar narrativas ambíguas e multifacetadas, que permitem diversas interpretações.

 * A cena da floresta se transforma em um momento de intensa tensão e perigo, revelando a fragilidade da vida de Vanka e a possível crueldade do avô.

 * Essa interpretação eleva o nível da obra, fazendo com que a mesma seja muito mais complexa e cruel do que uma leitura simplista pode apresentar.

Ao examinar os detalhes da cena e considerar as possíveis interpretações, você desvenda as camadas de significado e a profundidade da obra de Tchekhov.

Merso em reflexões, Vanka transporta-se às lembranças da vida pregressa com o avô, buscando reviver os momentos de felicidade pueril.  Contudo, mesmo nessas memórias, a imagem que a criança constrói do avô reveste-se de ambiguidade. Recorda-se do avô a observar a igreja, mas com “olhos apertados”. Novo ato que fala muito sobre seu avô enquanto ele despreza a igreja de cortinas carmesins que relembram tanto as igrejas quanto os prostibulos, está a mexer com as funcionárias.

O sagrado e o profano em ambos

Imerso em reflexões, Vanka transporta-se às lembranças da vida pregressa com o avô, buscando reviver os momentos de felicidade pueril.  Contudo, mesmo nessas memórias, a imagem que a criança constrói do avô reveste-se de ambiguidade. Recorda-se do avô a observar a igreja, mas com “olhos apertados”. Novo ato que fala muito sobre seu avô enquanto ele despreza a igreja de cortinas carmesins que relembram tanto as igrejas quanto os prostibulos, está a mexer com as funcionárias.

O sagrado e o profano em ambos.

É neste contexto ambivalente que Vanka despeja na carta a torrente de dor e sofrimento acumulados pelos maus-tratos e por ser perseguido. O seu relato minucioso pretende gerar compaixão no avô, explicitando a crueldade da sua situação e clamando por socorro. E, como é frequente em Tchekhov, quando a razão e os argumentos lógicos se mostram insuficientes, os personagens recorrem ao apelo emocional, por vezes tingindo-o de religiosidade.Como em a Dama do cachorrinho, quando Anna chega a relatar que teve uma possessão demoníaca.

Um traço marcante da obra de Tchekhov, claramente visível em “Vanka”, é a recorrente temática da rejeição afetiva masculina.  Nos seus contos, delineia-se um padrão onde as figuras femininas quase invariavelmente assumem o papel de cuidadoras, provedoras de afeto, educadoras e agentes de fortalecimento da autoestima. 

Com a emoção à flor da pele, Vanka prossegue a escrita ao avô.  Ainda que o desespero permeie as suas palavras, procura manter uma certa formalidade, demonstrando respeito e adequação social, em consonância com a hierarquia familiar vigente.  É neste esforço de persuasão que Vanka utiliza diversos recursos, buscando, em última instância, o reconhecimento do seu amor pelo avô, a validação da sua dor e, acima de tudo, a ação concreta do avô no seu resgate.

Para alcançar o seu objetivo, Vanka lança mão de um arsenal de estratégias persuasivas. Espalha palavras carinhosas ao longo da carta, evoca as tradições familiares como um apelo à ancestralidade e aos laços de sangue, reforça a sua condição de orfandade como um grito silencioso por amparo e proteção e, por fim, relembra memórias da infância partilhada com o avô, na vã tentativa de despertar a chama da afetividade há tanto tempo adormecida. Através destas artimanhas retóricas, 

Vanka procura relembrar ao avô a sua responsabilidade afetiva para com ele, declarando um amor infantil que anseia por reciprocidade, por uma correspondência que talvez nunca chegue.

Em meio à carta, Tchekhov insere uma digressão descritiva sobre o cão Viún, que perambula pela casa senhorial.  A caracterização do animal como “dissimulação de jesuíta” e “lobo sorrateiro” sugere uma alegoria mordaz do clero.  Viún, tal como certas figuras religiosas, é apresentado como hipócrita e traiçoeiro, causando danos sorrateiramente e roubando aos mais vulneráveis.  A metáfora intensifica-se ao considerar que jesuítas, historicamente, foram associados a uma certa dissimulação e a métodos controversos para atingir os seus objetivos. A imagem do cão ecoa, portanto, uma crítica irônica e contundente à Igreja e aos seus representantes. 

A ironia atinge um novo patamar com a menção ao hábito de oferecer rapé aos cães.  Enquanto Kachtanka reage com repulsa, espirrando e virando o focinho, Viún, “em sinal de respeito”, cheira o rapé e não espirra, apenas abanando o rabo. A cena, aparentemente trivial, adquire tons de crítica social ao sugerir que figuras tidas como “respeitáveis”, como certos membros do clero, partilham vícios mundanos, como o uso de rapé( usuários consistentes não espirram) disfarçando-os sob uma máscara de santidade e deferência. Padres e cães hipócritas, unidos na alegoria tchekhoviana. 

Num movimento de escape da dura realidade presente, Vanka permite-se idealizar Moscovo e o passado i na aldeia. No auge da fragilidade, apega-se à lembrança de um mundo mais afetuoso e seguro, buscando refúgio na nostalgia. E no extremo da carência, Vanka atreve-se a pedir um presente, uma singela “noz dourada”, como quem implora não por um objeto material, mas por uma demonstração tangível de afeto. 

E dentro das leituras de Tchekhov, o que seria essa nós dourada? É o amor aprisionado. Mas Vanka almeja a esse amor, mesmo que aprisionado e inacessível.

.

A disseminação dos sete pecados capitais ao longo da narrativa de “Vanka” não se revela mero acaso, mas elemento estruturante da crítica religiosa e existencial.

A vaidade manifesta-se no avô que observa a igreja com desdém; a gula é personificada por Viún, o ladrão de comida; a luxúria e a preguiça ganham corpo no avô que graceja e dorme; a ira irrompe na violência gratuita do patrão e, por fim, a inveja e a avareza insinuam-se na descrição das lojas opulentas de Moscovo, onde o luxo escancara a desigualdade social e a privação material para os mais pobres. 

Num gesto de profunda melancolia, Vanka suspira convulsivamente e volta o olhar para a janela, buscando talvez no mundo exterior algum alívio para a angústia que o consome. É neste momento de introspecção que as lembranças da floresta invadem a sua mente, resgatando a imagem do pinheirinho de Natal e da figura paterna do avô, que outrora o acompanhava nesta singela aventura. O contraste entre a felicidade pueril daquelas recordações e a crueldade do presente secciona a alma de Vanka, aprofundando a sensação de perda e exílio. 

Uma inferência bastante ousada. Não poderia serr Pelagueia (vinda do mar) e Olga Ignatievna(hinos em grego, fogo) rivais? A postura do avô é incompatível. Os pinheiros é quem sabe Vanka tenham sido considerados para o corte.

Lembrou-se de que era sempre o avô que ia ao bosque buscar um pinheirinho para os patrões, levando o neto consigo. Que época feliz! O avô grasnava, a neve dura grasnava e, vendo isso, Vanka também grasnava. Às vezes, antes de derrubar a árvore, o avô fumava o cachimbo, cheirava sem pressa o rapé, zombando do pobre Vaniúchka, que congelava… Os pinheirinhos jovens, cobertos de geada, estavam ali, imóveis, esperando para ver qual deles ia morrer. 

Jivariov poderia ser a pista de que Olga era sua amante. E a preferida de Vanka por ser a mais afetada. Para não chamar atenção sobre o desejo que ele não estivesse ali.

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